Decorria o distante ano de 1970. Era editor da Estampa António Carlos Manso Pinheiro, que criara a editora nos anos 60. Em torno de actividade editorial muito diversa havia um núcleo de agitadores intelectuais que deixaram a sua marca: Luiz Pacheco, Cesariny, Luiza Neto Jorge, entre tantos outros.

Publicavam-se obras ditas de vanguarda, também elas de autores de vanguarda (de Bulgakov ao genial proto-surrealista Manuel de Lima). Algumas obras, sobretudo estas, eram alvo da censura.

A editora Estampa, que, na época, albergava como autores e tradutores vários nomes de uma forma ou de outra relacionados com o surrealismo e as escolas denominadas na época «contra-corrente», dá à Estampa um pequeno volume com um grafismo diferente: «O Arranca-Corações», de Boris Vian.

O livrinho apareceu num formato de bolso, com miolo composto em Arial - ou uma tipologia semelhante, típica da editorial Estampa -, capa impressa a prata sobre uma cartolina cinzenta-escura. E o papel do miolo era azul!

A tradução do primeiro volume da Livro B ficou a cargo de Luiza Neto Jorge. Nas duas décadas que se seguiram, apareceram mais de 50 volumes traduzidos por nomes como Aníbal Fernandes, Manuel João Gomes, Ernesto Sampaio, José Saramago, Virgílio Martinho, F. Paiva Boléo, Álvaro Guerra, Fernanda Barão, Silva Duarte, João da Fonseca Amaral ou Jorge Silva Melo, apenas para mencionar alguns.

Nos anos 90, o ritmo de edição abrandou e acabou por parar. A partir daí até à insolvência da editorial Estampa em 2016/17 fizeram-se ainda diversas reimpressões de muitos dos volumes.

Ao longo de anos, a colecção Livro B definiu-se por si mesma. Livro B como filme de série B, livro alternativo, contra-clássico ou livros clássicos de uma imensa minoria.

Atualmente, dir-se-ia que se reuniram na Livro B as literatura marginais; com efeito, encontra-se lá a literatura mais surreal ou surrealizante, a literatura de género fantástico, humorística, de raiz simbolista, decadentista, a literatura infantil de profunda influência psicológica, a literatura erótica, a ficção científica, o «estranho» (no sentido americano do «weird fiction»), a «pulp fiction», o ensaio provocatório, enfim, o invulgar por vocação. Tudo o que revolve nos antípodas do establishment literário, tudo o que agita as águas do previsível. A colecção não temia ser pop, desde que esse pop não fosse reconhecido pela academia.

Passados 21 anos, em 1991, um ano capicua (coisa deliciosa para quem rondava o surrealismo), é dado à estampa o 55.º volume da colecção Livro B («A Dama de Branco e Outros Contos», de Nathaniel Hawthorne.

Por essa altura, a colecção tinha aberto novos universos de leitura para milhares de portugueses. Se a maior parte das bem-sucedidas colecções de bolso portuguesas do século XX era sobretudo para consumo de massas, e isto independentemente da sua qualidade intrínseca, a colecção Livro B esteve à altura do desígnio de ser alternativa: não se tornou uma colecção de massas, mas uma colecção de culto, para os connoisseurs.

LISTA DE TÍTULOS DA COLECÇÃO ORIGINAL
1 - O Arranca-corações / Boris Vian
(Tradução de Luiza Neto Jorge)
2 - O Elefante / [Slawomir] Mrozeck
(Tradução de Yolanda Artiaga)
3 - Do Assassínio como uma das Belas-artes / Thomas de Quincey
(Tradução de João da Fonseca Amaral)
4 - A Casa dos Mil Andares / Jan Weiss
(Tradução [do francês] de Ernesto Sampaio)
5 - Fábulas Fantásticas / Ambrose Bierce
(Tradução [do francês] de João da Fonseca Amaral)
6 - Manuscrito encontrado em Saragoça / Jean Potocki [mais tarde na lista de títulos inclusa no final de cada volume o nome do autor foi grafado como «Yan», a correcta transliteração é «Jan»]
(Tradução [do francês] de Ana Maria Alves)
7 - Alice do Outro Lado do Espelho / Lewis Carroll
(Tradução de Yolanda Artiaga, Nina Videira e Luís Lobo)
8 - Contos Cruéis / Villiers de l'Isle Adam
(Tradução de Fernanda Barão)
9 - A Embruxada / Barbey de Aurevilly
(Tradução de Ana Moura)
10 - Paraísos Artificiais / Charles Baudelaire
(Tradução de José Saramago)
11 - Aventuras de Arthur Gordon Pym / Edgar Allan Poe
(Tradução de Eduardo Guerra Carneiro)
12 - Frankenstein / Mary Shelley
(Tradução de Mário Martins Carvalho)
13 - Smarra, ou os Demónios da Noite / Charles Nodier
(Tradução de Álvaro Guerra)
14 - O Jardim dos Suplícios / Octave Mirbeau
(Tradução de Marília Caeiro)
15 - As Filhas do Fogo / Gérard de Nerval
(Tradução de Luísa Neto Jorge)
16 - O Fantasma dos Canterville / Oscar Wilde
(Tradução de Jorge Silva Melo)
17 - Os Demónios de Randolph Carter / H. P. Lovecraft
(Tradução de Jorge Silva Melo)
18 - O Capitão Cap / Alphonse Allais
(Tradução de Franco de Sousa)
19 - O Elixir da Longa Vida / H. de Balzac
(Tradução de Ana Moura)
20 - Avatar / Gautier
(Tradução de L. Lemos Viana)
21 - Histórias de Vampiros / [AA.VV.]
(Tradução de Virgílio Martinho e Sacadura Brettz)
22 - Aforismos / Lichtenberg
(Tradução de João Fonseca Amaral [provavelmente do francês])
23 - Contos Fantásticos / Ernst Hoffmann
(Tradução de Gomes Leal [provavelmente do francês])
24 - Dicionário das Ideias Feitas / G. Flaubert
(Tradução de João da Fonseca Amaral)
25 - O Outro Mundo ou os Estados e Impérios da Lua / Cyrano de Bergerac
(Tradução de Emanuel Lourenço Godinho)
26 - O Cocheiro da Morte / Selma Lagerlöf
(Tradução de Maria de Fátima Lourenço Godinho [provavelmente do francês])
27 - O Rei da Máscara de Ouro / Marcel Schwob
(Tradução de F. Paiva Boléo)
28 - O Cavaleiro das Trevas / Paul Féval
(Tradução de Emanuel Lourenço Godinho)
29 - She / H. Rider Haggard
(Tradução de Emanuel Lourenço Godinho)
30 - O Horla e Outros Contos Fantásticos / Guy de Maupassant
(Tradução de ...)
31 - O Lobisomem / Alexandre Dumas
(Tradução de ...)
32 - O Altar dos Mortos / Henry James
(Seleção, prefácio, notas e tradução de Manuel João Gomes)
33 - O Castelo de Otranto / Horace Walpole
(Tradução e introdução de Manuel João Gomes)
34 - Vathek / William Beckford
(Tradução, introdução e notas de Manuel João Gomes)
35 - O Italiano / Ann Radcliffe
(Tradução e cronologia crítica de Manuel João Gomes)
36 - Contos da Chuva e da Lua - Ueda Akinari
(versão portuguesa [do francês] de Manuel João Gomes)
37 - Plano de Evasão / Adolfo Bioy Casares
(Tradução de António Sabler)
38 - Crónicas Italianas / Stendhal
(Tradução e prefácio de Manuel João Gomes)
39 - O Livro de Areia / Jorge Luis Borges
(Tradução de Aníbal Fernandes)
40 - A Lente de Diamante / Fitz James O'Brien
(Introdução e tradução de Manuel João Gomes)
41 - Visão de Carlos XI e outros contos / Prosper Mèrimée
(Seleção, tradução e notas de Manuel João Gomes)
42 - Histórias Mágicas / Remy de Gourmont
(Introdução e tradução de Aníbal Fernandes)
43 - Histórias Desagradáveis / Léon Bloy
(Introdução e tradução de Aníbal Fernandes)
44 - A Estalagem do Dragão Voador / Joseph Sheridan Le Fanu [o nome correctamente grafado seria «LeFanu»]
(Introdução e tradução de Manuel João Gomes)
45 - O Poeta Assassinado / Guillaume Apollinaire
(Tradução de Aníbal Fernandes)
46 - Contos dos Homens Sem Sombra / ChamissoHoffmannGogolAndersen
(Selecção, versões, tradução e notas de Manuel João Gomes)
47 - Fausto / GoetheNerval
(Tradução de Luísa Neto Jorge sobre a versão francesa de Gerard de Nerval)
48 - O Castelo do Homem Ancorado / J. K. Huysmans
[o nome deveria ser grafado «J.-K.»]
(Tradução de Aníbal Fernandes)
49 - Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico / Jonathan Swift
(Tradução de João Fonseca Amaral)
50 - Os Cisnes Selvagens e Outros Contos / Hans Christian Andersen
(Tradução, prefácio e anotações de Silva Duarte)
51 - O Farol do Amor / Rachilde
(Tradução de Aníbal Fernandes)
52 - Riso Vermelho / Leonid Andreiev
(Tradução de Anibal Fernandes [presumivelmente do francês])
53 - A Biblioteca do Século XXI - Novelas Fantásticas / Stanislaw Lem
(Tradução «sobre versão francesa» de Teresa Brito)
54 - A Noite de Walpurgis / Gustav Meyrink
(Tradução de Maria Teresa Antunes Cardoso «sobre versão francesa»)
55 - A Dama de Branco e Outros Contos / Nathaniel Hawthorne
(Tradução de Ana Moura)

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Em 2014 entrei em contacto com a então editora Anna Manso Pinheiro, filha de António Carlos Manso Pinheiro. A minha intenção era tentar saber algo mais sobre a colecção. Foi criada por iniciativa de alguém? Quem? Havia uma pessoa em particular a assumir a direcção de colecção? Seria o próprio editor?

Por experiência, sei que quando uma editora (ou uma colecção) cria uma determinada reputação atrai naturalmente propostas e projectos que nela se enquadrem. Seria o caso. 

Não consegui qualquer resposta conclusiva, mas o espaço de contactos deste site espera testemunhos de quem viveu mais proximamente essa realidade e possa ter mais dados para partilhar.

Hugo Xavier
editor
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